2015/04/14

Eternas Resoluções Atrasadas de Ano Novo

I'd sooner chew my leg off
Than be trapped in this
How easy you think of all of this as bittersweet me

I couldn't taste it
I'm tired and naked
I don't know what I'm hungry for
I don't know what I want anymore


Bitter Sweet me - R. E. M.

Preciso fazer exercícios. Não fui à academia. Vou voltar a malhar.

Tenho que chegar cedo de forma exemplar e sair mais tarde. Não vou mais trabalhar de ressaca.
Mesmo malhando preciso comer menos. Fugi muito da dieta. Tenho que evitar fast-food.
Vou cumprimentar diariamente os colegas do trabalho. Tenho que conversar mais, não ser tão antissocial.
Tenho que tentar dormir bem, dormir cedo, ter horário regrado.
Preciso ver menos TV, fazer coisas mais produtivas como estudar ou ficar deitado olhando para o teto.
Preciso ter mais paciência e não ficar estressado buzinando como louco em engarrafamentos ou me enervar com o forró alto tocado pelo vizinho.
Tenho que evitar o alcool e os pileques de fim de semana.
Farei questão de ler mais e evitar a Internet e suas estranhas tentações.
Preciso ter uma vida tranquila, sem sobresaltos, alarmes ou surpresas. 
Quanto a ser feliz? Não é o mesmo que viver como uma propaganda de margarina?

2015/04/09

Erros...

Percebi que não sei lidar com as novas regras sociais e amorosas. Acho que são mutantes - meio X-Man com cromossomos alterados pela ubiquididade e quantidade de pessoas e estranhos poderes demonstrados por meio de nossos celulares com nomes estranhos como Facebook ou WhatsApp.
Não que tenha medo do diferente. Sempre achei que novidades são boas - desde alcaparras na comida até viagens à Bolívia, que seja. Mas tenho a estranha sensação de que piso em ovos e sempre os quebro.
Como lidar com pessoas 24 horas conectadas? Todos temos aquela necessidade fresca & neurótica de elaborar sofrimentos e rejeições e amarguras e pequenos melodramas cotidianos para depois conversar. Pois é - agora podemos tagarelar sobre isso todo o tempo com chiados do celular.
E os relacionamentos? Ás vezes parecem mais sólidos quando virtuais e descartáveis quando reais. Pode-se conhecer pessoas com base apenas em uma foto ou conversar com alguém a todo momento sem que a distância seja um problema. Pode-se estar presente todo o tempo sem nunca estar perto. Pode-se também estar ausente apenas esquecendo o smartphone no bolso.
Também estranho o conceito de ficar e sua assepsia indolor. Distanciamo-nos para não magoar e não chegamos perto para não sermos magoados. Fica o dilema: como brincar sem se queimar? Ninguém escreveu as regras. Não se sabe mais quais são.
Nao se dá mais valor aos encontros onde saem faíscas e as horas passam sem perceber. Quando se tem uma sintonia de gostos e opinioes que não se consegue esquecer. Essa assepsia nos engana (me engana) e nos fazem errar, sem perceber quao dificil e raro e de acontecer. Nao sei (soube) reconhecer o que e importante, pois parece que o celular e um amigo que cura toda solidao.
Imagino que estamos todos em uma roda gigante  - todos tontos com a mudança da paisagem, mas parados no mesmo lugar. No fundo, no fundo, todos queremos o par de sapatos feitos para o pé, suspiramos com os contos de amor eterno e acreditamos que existe a cara-metade. Ai, mas como a facilidade atrapalha!

2014/08/29

Vazio

Triste é quando o amor se esvai sem seu dono o queira. Vai fugindo, como um cão maltratado que apesar dos pesares tenta ser fiel e, desconfiado, fica cada vez mais longe.
Esvai-se, secando com a dor. Talvez gere raiva, angústia, rancor, mas tudo isso passa. Passarinho.
Quando se cansa não tem reza, benzedeira ou mãe de santo que o faça voltar. Nesses casos não existem amores zumbis, que renascem dos lugares mais improváveis. Vira uma pedra, difícil de esquecer e pior ainda de perdoar.
Até que surja um novo e a alegria volte. De repente tudo fica leve e flutua, como um disco voador levasse a vida de supetão. O passado deixa de ser importante e a vida por um tempo se parece com a de uma criança feliz, rindo de qualquer coisa. 

2014/07/27

Mentiras

  Ele as via. Tentava enganar-se desviando o olhar, fingindo que não existiam. Estavam todas lá.
  Via cada trinca, cada pedaço que ameaçava cair, cada deformação. Como um espelho quebrado, as mágoas e rancores se acumulavam. Não conseguia escondê-los.
  Sabia que ela esperava a resposta.
  Já não conseguia decidir se acreditava, se continuava. Procurava nesgas de sinceridade, uma bóia a que pudesse se agarrar.
   Depois de tantas mentiras, como confiar?  Valia a pena perdoar e não esquecer?  Como enterrar tantas malditas lembranças? Tantas desculpas, histórias mal-contadas, ligações perdidas e atrasos inexplicáveis. Como voltar a acreditar?
   Procurou motivos. Viu nos pedaços que sobraram um reflexo feio, mas ainda um reflexo. Pena que já não podia consertar.
- Tudo bem. Acredito em você.
   Sentiu que outra trinca se formou. Talvez um pedaço vá cair.

2014/07/10

Devaneios

"Ouça-me bem, amor
Preste atenção, o mundo é um moinho
Vai triturar teus sonhos, tão mesquinho
Vai reduzir as ilusões a pó
".
Cartola



      Tomou mais um gole enquanto a esperava. Boca seca. Atrasada como sempre.
      Ligou mais uma vez. Fora de área.
      Foi quando começou a se questionar. Lembrou dos anos juntos e dos desencontros e reencontros. Dos risos e choros, dos muitos desacertos.
      Pensou. Pensou naquele lado negro que gota a gota lhe sussurrava que algo estava errado. Não eram só ciúmes.
       Desta vez era diferente. Ela não estava mais lá. Estava em outro lugar. Havia visto a lingerie nova, percebido os horários descoordenados, as desculpas cada vez mais frequentes, a constante indiferença  e o desejo sempre ausente.
       Queria que tudo fosse mais simples. Que pudesse escolher os caminhos retos e desprezar os tortos. Que agisse sem precisar de trancos. Que não precisasse de certezas, já que quase a tinha.
       Queria deixar tudo para trás. Esquecer e viajar, para o Paraguai que fosse. Soltar-se no mundo e sentir-se livre, leve. Dançar com um par novo e fugir.
       Seria tudo muito mais fácil se não a amasse.

2014/06/29

Palavras

   Queria poder escrever o que está dentro de mim. Queria poder embrulhar e despachar para longe. Queria dizer que não é meu.
   Todavia quando me olho ainda está lá. Tento enterrar, esconder, incinerar,esmagar. Não adianta. Continua a me fazer sofrer. A me trazer noites insones. A não me deixar trabalhar. A me esquecer.
     Queria.Queria sentir-me solto e carinhoso. Queria estar de bom humor. Queria fazer os outros felizes. Queria fugir e deixar o que me consome para trás.
     Queria poder passar tudo a limpo em palavras carregadas com meus sentimentos. Folgaria em vê-las de quando em quando, chorar um pouco e esquecê-las.
     

Caminhos

    Olho para a frente e vejo minha estrada. Segura e certa como sempre foi. Sei onde acaba só não sei quando, assim como todos.
   Por vezes me pego a devanear, sonhando em não ter para onde ir. Imagino estar livre, em não saber onde chegar e onde estar. Será que este caminho me faz feliz?
    Sinto vontade de mudar, de fazer escolhas por impulso, de não saber o que está por trás da próxima curva. De cair e levantar. De chorar e de sorrir. De ter surpresas boas e ruins.
    Entretanto lá está a estrada segura, certa e cômoda. Por que arriscar? Simplesmente seguir em frente é tão fácil.
    Fito o horizonte e me movo para dar um novo passo. Respiro fundo. Piso dentro ou fora do caminho?

2014/03/16

Momentos

        Olhei para trás à procura do que havia feito de importante em minha vida.
        Lembrei do patrimônio arduamente construído, do trabalho a que tanto me dediquei. Das muitas pessoas que passaram e se foram.
        Percebi que o que sobram são momentos. Momentos bons e ruins. Felizes e tristes. São eles que importam.
         Mesmo aqueles fatos que deseja esquecer. Mesmo os instantes infelizes, vergonhosos, penitentes. Eles estão lá e também são importantes porque lhe fizeram chegar onde está.
         Entretanto são os felizes que desejamos lembrar, ah, os felizes. A felicidade não se mede em anos ou meses como muitos parecem crer. Ela está em instantes, em sorrisos, palavras ternas e esgares.
        .Na verdade os momentos de felicidade são os mais ingratos. Você só os percebe quando já passaram ou quando a perdeu.

2014/03/15

Olhar


         Quando chegou ele a viu e percebeu. Não precisava de palavras. Estava tudo lá. Tudo que precisava saber descobriu quando olhou em seus olhos.
         Viu a lágrima a se formar, a firmeza disfarçada, a culpa e a acusação. Tudo misturado. Como só casais que se conhecem sabem.
         Nada precisava ser dito. Nada precisava ser mostrado. Ele simplesmente já sabia.
         Sentou-se e procurou suas emoções. Vasculhou a tristeza que sim, estava lá. Percebeu resignação. Não encontrou a dor, tão temida, ou a raiva. Não viu a culpa.
         Notou que também precisava tomar uma decisão. Com os olhos secos decidiu recomeçar.

2004/09/10

Conto Meu: Série "Treinando literatura com retorno financeiro"

Às Margens da Estrada de Pedra Eu Sentei e Sorri *

* Pelo Mago Fabiano Santiago

Continuando meu longo caminho, enxerguei sentada tristemente em um canteiro uma velha senhora toda de branco, com um vestido esvoaçante ao vento roçando um ramalhete de flores e capim. Parecia diáfana, flutuando entre a incerta força da vida e a insegurança que o desconhecimento do destino nos traz.
Sentei-me ao seu lado e tentei entender sua melancolia e ajudá-la com minhas humildes palavras.
Ela me falou de sua dor, de como não entendia as estradas tortuosas do saber humano e de como todos nós buscam abrigo em outros, sem perceber que a verdadeira proteção está no gosto do amor etéreo, êfemero em aparência, eterno em amplitude, terno em vivacidade.
Falei de como o tempo é rápido como um sopro e como faz com que a vida escorra entre nossas mãos sem que percebamos. Alegrei-a contando como a natureza é bela, mostrando a alegria das andorinhas flutuando e os raios de sol descendo das alturas e trazendo o abono das horas e o sêmem da eternidade.
Expliquei que do mesmo modo como a dor a havia encontrado, a felicidade também poderia buscá-la como uma fragosa e alcantilada vereda, a qual nos esmorece o coração, mas não nos encaminha ao lugar eterno dos condenados.
E assim a ajudei a encontrar uma paz momentânea, agora acordada pra vida, quebrando o vento com seus ares, sorrindo para suas preciosidades.

2004/09/08

A Senhora da Esquina

Estava de frente para a rua, aguardando, quando ela me viu. Encaminhou-se na minha direção sem cerimônias, como se já me conhecesse.
-O senhor sabe se por aqui passa o ônibus que vai para ....
Ainda estou em uma idade em que gosto de ser chamado de senhor, principalmente por uma pessoa mais velha. Dispus-me a ajudar, com o pouco que sabia e expliquei à senhora. Ela olhou parao chão e fez o pedido.
- Será que o senhor poderia me conseguir um dinheirinho para inteirar a passagem? Só tenho 50 centavos.
Olhei para a mão estendida com a pequena moeda e entendi o motivo de tanta educação. Abri a carteira e pus a nota de 1 real em suas mãos. Ela me olhou feliz e agradeceu.
- Que Deus lhe dê muita saúde, felicidade e uma namorada BEM BOA!
Fiquei surpreso com o final do agradecimento. Examinei o rosto da recém conhecida procurando por algum traço brincalhão ou irônico. Ela me fitava de forma séria, aguardando que me despedisse.
Encolhi os ombros. Então fiz a minha própria interpretação do adjetivo guardado para a minha namorada e dei outro real para a senhora para garantir. Quem sabe?


2004/08/26

Conto Meu: Série "Entendendo as Mulheres"

Jogo de Adivinhação

“When I'm lying in my bed
I think about celibacy
and I think about sex
And neither one, particularly
Appeals to me

Por sexo.
Insisti em relacionamentos ruins.
Desisti de mulheres legais.
Perdi amigas e sono.
Menti.
Engoli sapos.
Apenas por fragmentos?”

Do amigo Santana (copiado sem autorização)

- Eu te considero um bom amigo.
Fitei os olhos dela, tentando adivinhar o que estava querendo dizer. Amigo? Se fôssemos apenas amigos por que havia esperado tanto tempo, se eu já havia tantas vezes demonstrado querer mais que amizade? Por que havia aceitado meu convite para sairmos juntos? Mal consegui disfarçar meu desapontamento e (sim, claro); uma pontada de raiva.
-Não esperava que dissesse isso.
Separei nossas mãos e me movi para o outro lado da mesa. Aproveitando a proximidade do garçom, pedi outra bebida. Desta vez não perguntei se ela também queria.
Ela não suportou meu gesto.
-Se eu soubesse que você reagiria assim não teria falado.
Encarei-a e examinei seu rosto. Estava séria, com um olhar de preocupação. O que eu devia dizer? Tudo era um jogo. Será que ela estava em dúvida e não sabia se deveríamos nos tornar amantes? Será que havia outra pessoa e ela não queria me contar? Decidi arriscar.
- Não te vejo apenas como amiga.
- Eu sei.
Por que ela não falava o que eu precisava ouvir? Medo de me magoar? Queria que eu a visse como difícil? Voltei meu olhar para o decote generoso nos seios e vagarosamente examinei o pescoço e o rosto, despindo-a. Ela ruborizou e riu timidamente.
Aproximei-me. Segurei sua mão. Tentei roubar um beijo.
Ela fugiu.
-Você não me entende!
Acompanhei enquanto ela pegava a bolsa e ia embora com passos fortes sem se despedir. Tomei outro gole da bebida. Resolvi ligar no dia seguinte.

2004/08/23

Cortando o Cabelo

Eu não deveria ter problemas em cortar o cabelo. Para mim (e para a grande maioria dos representantes da raça masculina), os fios capilares não são sinal de vaidade e não precisam ter um corte diferente ou alterado. Claro, precisam existir e o ditado de que "é dos carecas de que elas gostam mais" é apenas um consolo para os que dele precisam. Em geral, um bom cabeleireiro termina um bom corte em minha cabeleira em minutos, sem nenhuma dificuldade. Por isso costumo procurar locais baratos.
O problema é que exporadicamente surge um profissional da área tão ruim em sua profissão que consegue fazer um corte ruim. Eu repito, o cabeleireiro tem de ser muito bom em errar para me desagradar. Isso ocorreu aqui em Manaus há 6 semanas. Paguei cinco reais e saí com um cabelo todo espetado, sentindo-me o Cebolinha.
Aqui cabe uma explicação às amigas leitoras sobre a psicologia masculina. Sei que devem estar pensando: " foi merecido, vai economizar com o corte de cabelo?" Para nós o cabelo não deve ser um motivo de preocupação. Ele deve apenas existir e estar lá. Só vamos ao cabeleireiro quando está grande (e assanha tanto que incomoda) ; e então deve ser cortado para ficar menor. Homens não vão a salões para mudar corte, fazer chapinha, pintar, aparar as pontas periodicamente, fazer permanente, dentre outras. As exceções existem e, em geral, são vistas como tal (bom eufemismo, não?).
Ocorreu que no último final de semana, escaldado pelo corte anterior, decidi gastar um pouco mais de dinheiro e dirigir-me a um salão decente, desses que têm mais de uma cadeira para sentar e uma plaquinha de corte "Unissex" na porta. Em geral procuro evitar essa opção pelo simples fato de que o maior público é obviamente o feminino, e me sinto deslocado no ambiente. Foi exatamente o que aconteceu.
Ao entrar a atendente (o primeiro salão com atendente em anos que frequento); perguntou-me quem procurava. Claro, eu não podia ter vindo para cortar cabelo. Informei que gostaria de fazer um corte e ela apontou para o fundo. Circulei entre chapinhas, manicures e pedicures, embelezadores até o fundo do salão, onde a profissional me ignorou. Homens não são vistos como clientes! Tive que explicar que queria cortar.
Então sentei-me e perguntei por uma revista. Ela me ofereceu uma coletânea de "Caras", "Viva" e "Revista do Amaury Júnior". Pedi uma "Veja", "Isto é" ou parecida e ela me olhou com uma expressão de desculpa. O melhor foram as explicações: "É mesmo, homem não gosta de ler sobre fofoca. Temos 3 revistas para homem aqui, só que não sei onde estão".
Reconheço que o corte ficou bom, no entanto, no próximo mês acho que vou voltar a ficar parecido com o Cebolinha.